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OS POSTAIS

Vasco e São começaram a namorar com 17 anos. Na altura isso era comum: quem queria trabalhar fazia o 5º ano do liceu, procurava trabalho, depois um namorado ou namorada e logo que tinham a “vida arranjada” casavam.

São empregou-se nos escritórios de uma fábrica de embalagens e Vasco numa loja de venda de tecidos.

São era uma morena vistosa, de olhos e cabelos negros, que fazia virar muitos pescoços à sua passagem, mas estava comprometida com Vasco de forma que estas manifestações eram apenas um aborrecimento.

Vasco tinha por ela uma “paixão assolapada”, nas palavras da Mãe de São. Prova disso eram os postais ilustrados que lhe enviava, com imagens e mensagens doces, uma vez por semana.

Estavam por toda a casa: por debaixo do vidro da secretária no quarto de São, num placard na parede, em várias caixas e gavetas e até em sítios já esquecidos.

Vasco namorou São durante 4 anos e meio, o que significou que lhe enviou quase 900 postais.

O namoro acabou porque São se apaixonou pelo Diretor Comercial da empresa, o Oliveira, que era 5 anos mais velho que o seu Pai, casado e com filhos.

Naturalmente o Pai de São ficou chocado, gritou, ameaçou, mas, entre silêncios, segredos e movimentos lentos, o namoro manteve-se e o casamento deu-se.

Os postais foram colocados em sacos pretos do lixo e encostados a uma parede. Foi assim que Isabel os encontrou num dia que passou, com a Mãe, pela casa de São. Sempre a encantaram aquelas imagens dos postais, coloridas, diferentes das que via nos livros infantis e ainda gostava mais delas, como gostava de tudo o que pertencesse à “prima São”, porque isso a fazia sentir-se crescida.

A Mãe de São diz-lhe:

- “Vá Isabel, podes levar os que quiseres para brincar”.

Isabel pergunta à Mãe:

-“Porque é que puseram os postais da São todos nestes sacos?”

A Mãe responde-lhe:

-“Porque os vão queimar.”

Incrédula e sobressaltada, Isabel do alto dos seus 6 anos pergunta à Mãe

-“Mas porquê?!”.

A resposta da Mãe lembra-a até hoje, embora só muito mais tarde a tenha realmente compreendido:

-“Porque nas cinzas não se lê”.

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