Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

 A DESORDEM MUNDIAL Não é fácil lidar com a desordem mundial que vemos ser plantada, sem pudores, pela mão de Trump e do seu "sharck tank" de milionários.  Não é fácil lidar com a desordem parlamentar que, diariamente, vemos ser plantada pelo rufias do Chega. Não é fácil lidar com as estatísticas de violência doméstica, violência no namoro, violência sexual ou bullying. Não sei se há alguma ligação entre estas situações, mas, na minha humilde opinião, revelam, primeiramente, uma enorme falta de educação (pelo próprio e pelos outros) e, também, a desumanização da relação com o outro. O outro não é olhado como um igual, mas é visto à distância dos gadgets tecnológicos como uma animação de um jogo, que podemos violentar para ganhar pontos. E esta espécie de gás, que intoxica os comportamentos, parece volátil o suficiente para chegar à relação dos estudantes com os professores, dos doentes com os médicos, dos chefes com os trabalhadores, dos políticos com os cidadãos, dos automob...

OS POSTAIS

Vasco e São começaram a namorar com 17 anos. Na altura isso era comum: quem queria trabalhar fazia o 5º ano do liceu, procurava trabalho, depois um namorado ou namorada e logo que tinham a “vida arranjada” casavam. São empregou-se nos escritórios de uma fábrica de embalagens e Vasco numa loja de venda de tecidos. São era uma morena vistosa, de olhos e cabelos negros, que fazia virar muitos pescoços à sua passagem, mas estava comprometida com Vasco de forma que estas manifestações eram apenas um aborrecimento. Vasco tinha por ela uma “paixão assolapada”, nas palavras da Mãe de São. Prova disso eram os postais ilustrados que lhe enviava, com imagens e mensagens doces, uma vez por semana. Estavam por toda a casa: por debaixo do vidro da secretária no quarto de São, num placard na parede, em várias caixas e gavetas e até em sítios já esquecidos. Vasco namorou São durante 4 anos e meio, o que significou que lhe enviou quase 900 postais. O namoro acabou porque São se apaixonou pelo Diretor C...

VOZES AMIGAS

 Miguel ouvia vozes dentro da sua cabeça desde os 17 anos. As vozes diziam-lhe coisas tão diferentes como “tens pessoas a perseguir-te”, “o teu amigo X quer matar-te”, “a pomba que acabou de pousar aos teus pés é um sinal de que és Jesus Cristo”, “os teus Pais odeiam-te”, “há extraterrestres no teu quarto que te querem raptar e levar para outro planeta” entre muitas outras coisas que Miguel compreendia, via que eram verdade, por isso se comportava de acordo com a situação. Só a família e os amigos não acreditavam. Diziam-lhe que isso só existia na cabeça dele, que era uma cisma, que tinha de ir ao médico. Com o tempo Miguel cansou-se de explicar aos amigos que tudo batia certo, que tudo fazia sentido, que o que as vozes lhe diziam era verdade e os amigos cansaram-se de o tentar convencer do contrário. Sentia-se só, para além de incompreendido por toda a gente. Ele sabia que a família não dizia nada mas pensavam o mesmo que os amigos, e isso ainda lhe doía mais. Então as vozes começ...

Salgado

Que mar é este onde me sento Onde nada vive Pois é Morto. Terão sido as estátuas de sal de Sodoma Que o temperam de mal?  

Água

A cortina húmida e condensada Enevoa a vista da janela Fica mais etérea e bela A cidade, na bruma amansada. E se a cortina húmida se torna sólida Toda a cidade fica mais suave. De cristais de neve, floco leve A paisagem parece aveludada. E afinal, nada mais é que água.

Penas

Acordei. Vi penas no chão. De onde virão? Examinei as costas; Nada de novo. Recordei os sonhos; Nem anjos, nem aves. De onde virão? Segui o seu rasto, Pluma a pluma E descobri: Libertavam-se, uma a uma, Do edredão.  

Búzios

Aconcheguei um búzio a cada ouvido. O ar que rodopia nas concavidades Trouxe-me a utopia do Mar em bramido. Em estereofonia…