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VOZES AMIGAS

 Miguel ouvia vozes dentro da sua cabeça desde os 17 anos.

As vozes diziam-lhe coisas tão diferentes como “tens pessoas a perseguir-te”, “o teu amigo X quer matar-te”, “a pomba que acabou de pousar aos teus pés é um sinal de que és Jesus Cristo”, “os teus Pais odeiam-te”, “há extraterrestres no teu quarto que te querem raptar e levar para outro planeta” entre muitas outras coisas que Miguel compreendia, via que eram verdade, por isso se comportava de acordo com a situação.

Só a família e os amigos não acreditavam. Diziam-lhe que isso só existia na cabeça dele, que era uma cisma, que tinha de ir ao médico.

Com o tempo Miguel cansou-se de explicar aos amigos que tudo batia certo, que tudo fazia sentido, que o que as vozes lhe diziam era verdade e os amigos cansaram-se de o tentar convencer do contrário.

Sentia-se só, para além de incompreendido por toda a gente. Ele sabia que a família não dizia nada mas pensavam o mesmo que os amigos, e isso ainda lhe doía mais.

Então as vozes começaram a dizer-lhe que toda a gente o odiava, que lhe chamavam nomes feios quando não estava presente, que até as pessoas na rua se riam dele e, da última vez, disseram-lhe que só seria feliz se se suicidasse e acabasse com este sofrimento.

E Miguel obedeceu.

Do que se seguiu, não se lembra de nada, apenas do que a família lhe contou: que foi reanimado pelo INEM, que esteve internado vários meses, que foi medicado e fez terapia.

Miguel acredita na família, mas, no fundo, sabe que foi ele que conseguiu resolver a situação: construiu uma casinha pequena e airosa que colocou em cima da secretária e, uma a uma, convenceu as vozes a deixarem de morar na sua cabeça e passarem a morar naquela casinha.

Agora, sempre que se sente só, Miguel vai lá e conversa com as vozes. Isso fá-lo sentir-se feliz e aliviado. As vozes são as suas amigas.

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